CALABAR CHICO BUARQUE E RUY GUERRA PDF

Na dйcada de 70, a dramaturgia nacional era alvo do mesmo patrulhamento que cerceava a liberdade de mъsicos, polнticos, escritores, educadores e tantos outros. Й neste contexto que dois importantes artistas escrevem uma das pбginas mais importantes do teatro brasileiro contemporвneo. Exemplo de utilizaзгo da matйria histуrica como instrumento gerador de reflexгo, Calabar - o elogio da traiзгo, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, й relanзado pela Civilizaзгo Brasileira com novo projeto grбfico. Calabar - o elogio da traiзгo, escrita justamente entre os anos de e , no auge da ditadura militar brasileira e as vйsperas do abril florido da revoluзгo portuguesa — o que criou obstбculos а montagem da peзa — й uma alegoria histуrica que se passa na йpoca das invasхes holandesas em Pernambuco, no sйculo XVII. Aborda a questгo da lealdade e da traiзгo, numa clara alusгo а conjuntura polнtica do perнodo em que foi escrito.

Author:Malalrajas Shaktilrajas
Country:Tunisia
Language:English (Spanish)
Genre:Technology
Published (Last):17 March 2006
Pages:255
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Uma reflcxlo sobre a traio Trecho de um sermo do Padre Vieira: "Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo gals, os escravos despidos e nus; os senhores se banqueteando, os escravos perecendo fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores cm p, apontando para o aoite, como esttuas de soberba e tirania, os escravos prostrados com as mos atadas atrs, como imagens vilssimas da servido e espetculos de extrema misria.

Um pas dilacerado pela batalha sangrenta entre portugueses e holandeses, reflexo das contradies fundamentais da poltica internacional da Europa.

Por trs das motivaes da luta, freqentemente disfaradas como disputas religiosas, est o objeto bsico da pilhagem: o acar o lucro da produo dos engenhos e canaviais, e o lucro da distribuio nos portos europeus. No existem ainda condies maduras, do ponto de vista social, econmico, nem poltico, para uma opo brasileira, para uma luta de libertao nacional.

Nativos, ndios ou negros, brancos ou mulatos, mamelucos ou mestios, lutavam de um lado ou de outro. Os ndios tupis, por exemplo, estavam ao lado dos portugueses, enquanto os tapuias aderiram ao exrcito holands, por uma srie de razes. A chamada "resistncia brasileira", a luta de guerrilhas que impede a consolidao da invaso holandesa sobretudo a resistncia do colonialismo portugus. Descrevendo a queda do domnio holands, os historiadores Jos Honrio Rodrigues e Joaquim Ribeiro afirmam categoricamente "que a luta , pois, inegavelmente, um conflito entre as classes rurais e as classes urbanas, e no um movimento nacional".

Os holandeses foram expulsos por uma luta revolucionria auxiliada inclusive pela Inglaterra, interessada em destruir a hegemonia martima da Holanda estimulada pela situao econmica ruinosa dos senhores de engenho a poltica administrativa e econmica dos holandeses no Brasil produziu a decadncia do patriarcado rural e o aparecimento de uma burguesia mercantil nos centros urbanos, aguando a contradio entre a cidade e o campo : com os holandeses no poder, os senhores de engenho no mais dominam a vida econmica e poltica da colnia; engenhos, escravos e instrumentos de trabalho no mais pertencem a seus antigos proprietrios; os grandes senhores da vida colonial so os mercadores.

A revolta a nica sada para os senhores de engenho. A batalha travada em nome da libertao do pas e da defesa do catolicismo. Na verdade travada pelo poder, pelo lucro. Aos brasileiros restava a possibilidade de escolher um lado ou outro.

Os interesses econmicos determinavam as opes. Traio era uma atitude cotidiana, alis implcita na prpria colocao do problema: defender Portugal ou defender a Holanda significava uma traio ao Brasil. Trocar de lado era um hbito constante. De toda esta confuso, restou um bode expiatrio: Calabar.

Desde os bancos de escola primria nos ensinam que Calabar foi um traidor. Nada mais lgico, j que nossa histria oficial defende o ponto de vista da colonizao portuguesa. Para os holandeses, entretanto, Calabar um heri. Sua chamada "traio" s pode ser compreendida no seio desta opo, que ele manteve at suas ltimas conseqncias: foi morto e esquartejado.

Acreditou que os holandeses pudessem trazer ao pas um governo mais livre e mais humano, menos opressivo e escravizador que a colonizao portuguesa. Na dramaturgia moderna, Brecht, mais do que ningum, desmistificou de forma irreversvel o conceito de heri. Em Calabar O elogio da traio a referncia ao Elogio da loucura de Erasmo, no subttulo da pea, no gratuita, mas sim fruto de uma postura lcida e irnica , Ruy Guerra e Chico Buarque de Holanda desmistificam, com inteligncia e sensibilidade, o conceito de traidor.

E o conceito, vazio e abstrato, de "traio". Infeliz o pas que tem necessidade de heris, afirma Brecht em Galileu Galilei.

Em certo sentido, o texto de Calabar parece afirmar: infeliz o pas que tem necessidade de traidores. Nem conden-lo. O texto no pretende ser uma pea histrica, ou seja, reconstituio minuciosa de uma poca, suas motivaes, contradies etc.

A Histria utilizada como matria para uma reflexo que ultrapassa os limites de determinadas circunstncias poltico-econmicas j superadas. Em ltima anlise, todos os personagens so histricos com exceo de Anna de Amsterd, mas mesmo ela uma sntese, em certo sentido, de tantas prostitutas importadas nos navios holandeses e todos os fatos so histricos.

Mas na pea servem apenas de ponto de partida para uma criao livre, espontnea, criativa e pessoal. O passado revisto com a lucidez de quem vive o presente: com a conscincia de quem mergulha na Histria em busca de uma compreenso do mundo de hoje. Calabari neste sentido, uma reflexo aberta, irnica e provocativa, teatral e musical, grotesca e crtica, existencial e materialista, sobre o significado, tornado relativo, portanto passvel de interpretao, do problema e do significado da traio.

A Companhia das ndias Ocidentais, sociedade por aes, organizada na Holanda em , visando multiplicar a acumulao de capital, justificada e apoiada pelo calvinismo, utiliza a pilhagem e o assassinato, o saque e a pirataria no momento em que o capitalismo d seus primeiros passos no continente europeu , procura invadir o Brasil em , atacando a Bahia, mas sofre violenta derrota.

O ano de marca o fim da trgua entre Holanda e Espanha que domina Portugal, que, por sua vez, domina o Brasil. Para os comerciantes holandeses torna-se imprescindvel a conquista de nova rea de produo. O alvo Pernambuco. Em outras palavras, o alvo o acar, a produo dos engenhos e dos canaviais.

Para os invasores, entretanto, interessa conquistar o territrio, mas manter intato o sistema de produo. As tropas holandesas desembarcam em , mas no conseguem expandir seu domnio com muita facilidade: os portugueses resistem, sobretudo no Arraial de Bom Jesus, chefiados por Mathias de Albuquerque, auxiliado por um negro embranquecido, Henrique Dias, e por um ndio cristianizado, Felipe Camaro. E por um guerrilheiro quase invencvel, Calabar.

No dia 20 de abril de , quando a luta est numa espcie de empate, Calabar muda de lado. E os holandeses comeam a triunfar, ganhar territrio, expulsar os portugueses. Para transformar o Brasil numa Nova Holanda, os conquistadores holandeses enviam Maurcio de Nassau, uma das personalidades mais fascinantes e contraditrias da histria do Brasil.

Trazendo uma corte de artistas e cientistas, Nassau estabelece o choque entre o importado do humanismo renascentista europeu e o primitivo missioneirismo medieval en- carnado pela Companhia de Jesus. Estabelece a lei como igual para todos, sejam quais forem os protegidos ou punidos. Concede medidas de tratamento mais humano para os negros, organiza uma cmara com igual nmero de representantes holandeses e brasileiros, permite, dentro de medidas, a liberdade de culto: preciso no esquecer que os protestantes so os membros de seu governo e seus chefes, os catlicos so os senhores de engenho a produo, e os judeus representam o comrcio, o capital.

Por trs de uma poltica de conciliao aparentemente liberal existe o planejamento estudado de um estadista hbil: paz significa maior produo, maior produo significa maior lucro. Mas Nassau no se descuida tambm de aes militares, mantendo viva a guerra de conquista. Acaba, entretanto, destitudo de seu posto, por suas prprias contradies.

Sua administrao no era vista com bons olhos pelos duros dirigentes da Companhia das ndias Ocidentais, que no estava interessada em suas obras de jardinagem ou urbanizao, construo de pontes ou palcios. Internamente tambm as contradies se aguam: Nassau ataca a monocultura do acar e chega mesmo, timidamente, a ameaar a estrutura do latifndio.

Em seu governo as cidades crescem, os senhores de engenho perdem seu domnio econmico e poltico. Assim mesmo, Nassau faz as moendas funcionarem na produo do valioso p branco: de engenhos da regio, ao menos voltam a produzir.

Muitos so confiscados e colocados em leilo. A resistncia portuguesa no cessa, mas a figura de Nassau assegura um momento de festa. Um dos principais lderes da expulso dos holandeses, Jos Fernandes Vieira, s assumir esta postura poltica aps o afastamento de Nassau: no perodo nassoviano no s admira como colabora com os holandeses.

Em certo sentido, Nassau assume o sonho de Calabar: o utpico sonho de um pas mais livre. Mas a pacificao e a colonizao liberal no poderiam ser um fim para os vidos abutres da CIO.

E porque conquistei mas no fui cego no exerccio do po. A mesma Companhia que me trouxe, me leva. A estrutura de Calabar profundamente teatral na medida em que escapa s regras habituais da dramaturgia bem-comportada. Existe uma unidade que se manifesta justamente na descontinuidade quase cinematogrfica do relato. Cada cena se exprime livremente, independente das demais, em termos de estrutura, Mas o todo conserva uma linha dramtica conseqente, lgica, objetiva.

No princpio, inesperadamente, um personagem se dirige ao pblico e pede ateno: No a ateno que costumais prestar aos oradores sacros.

Mas a que prestais aos charlates, aos intrujes e aos bobos da rua. Para o espetculo, o primeiro problema a solucionar encontrar a dosagem entre um realismo crtico distanciado e um psicologismo existencial, exposto com vigor e penetrao. Mas todos os recursos so vlidos para desvendar esta rede de traies. A cada instante, em cada momento, os personagens traem. Traem alguma coisa, algum, alguma idia, 44 ou traem a si mesmos.

Para um personagem, num espasmo de lucidez, em determinado momento o simples fato de continuar vivo uma traio. Para Brbara, a mulher de Calabar, a traio uma obsesso que ela procura desvendar em suas ltimas conseqncias, entregue de corpo e alma a uma tentativa desesperada de compreenso. No personagem Sebastio de Souto, a traio inicialmente cotidiana e mesquinha se transforma, conscientizada quase atravs de um processo de enlouquecimento irracional e lcido, num ato final de entrega, num suicdio anrquico e individual que ao mesmo tempo no est isento de uma conotao trgico-grotesca, de uma ltima e derradeira forma de compreenso e ao.

O que interessa ao texto o comportamento dos homens entre si, observados numa determinada circunstncia histrica. Esta postura traz o texto at nossos dias.

Faz de Calabar uma reflexo sobre o hoje e o aqui, sobre a responsabilidade, a tica, a opo e os possveis destinos do homem num mundo de guerra e paz. A parbola parte da realidade para chegar ao espectador de forma ntida, num convite reflexo sobre a transformao desta realidade. Todos os personagens vivem na lama da traio e esto perdidos numa selva de traidores.

Mas no so motivados: vivem suas contradies de forma vital, humana, profunda. Nassau proposital e fundamental, no espetculo, que Mathias e Nassau sejam interpretados por um mesmo ator: ambos significam a mesma coisa como vassalos do colonialismo, e ambos sofrem quase que o mesmo processo interior, ainda que em circunstncias diversas chega ao pas afirmando que Calabar no morreu em vo. Mas, no final, trai o sonho de Calabar e regressa Holanda, com lgrimas nos olhos, carregado nos braos dos ndios.

Cabe ao espectador observar homens agindo, pesar suas aes e alternativas, ver o que fizeram, onde foram omissos ou responsveis. O texto no encerra uma soluo dogmtica, nem o espetculo pretende fechar as chaves de entendimento dos fatos.

Cabe ao espectador, diante dos caminhos oferecidos sua sensibilidade e inteligncia omitir-se ou escolher sua forma de pensar. O espectador diante do espetculo, livre. O que importa o dilogo pai co-platia. A realidade, a ser transformada, est fora do tea tro. O palco no quer entregar ao pblico nenhuma verdade nenhuma certeza.

Ao contrrio, quer provocar dvidas, des confiana e perplexidade.

RAAG BODH PDF

Calabar: o Elogio da Traição

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RUY GUERRA

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